segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Mil duzentos e troca o passo, sexta à noite, algures

Cavalgando seu corcel sem parar,
D. Sardão segue, apenas de bermudas.
E sente o cheiro longínquo no ar
A suor morno e ratas peludas.

Curva com força a seguir aos sinais,
Nem Deus nem o Demo podem pará-lo,
Seu hálito é a sucos vaginais,
Seu tesão já incomoda o cavalo.

No alto de uma árvore, porém,
A Lei tem um vigilante, patife,
Numa Stop o xerife o detém,
D. Sardão tem que mamar o xerife.

Não é razão para desanimar.
Confiante no cheiro que ainda sente,
Pica o cavalo e põe-se a gritar
Com a boca ainda meia dormente.

Lá seguem num galope meio manco,
O melhor que consegue o cavalo.
É que o xerife subira a um banco
E acabara também por enrabá-lo.

Mas Deus é grande e quem busca alcança.
(E D. Sardão era maior que Deus:
A de Deus comparam-na a uma lança,
A de Sardão nem cabe em museus.)

Chegado ao Castelo Prometido,
Entrar é fácil, conhece a porteira,
Já lá o tinha uma vez metido,
Lembrava-se, fora em dia de feira.

Por fim, em correrias desabridas,
Chega ao grande salão, teso e feliz -
Quinhentas e três donzelas despidas:
São todas fufas, nenhuma o quis.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Cruzada pela passareca (nobre estória de meu pai, S. Fornicolau Cueca)

Um rei de calças na mão
S. Fornicolau Cueca
Assim o anunciavam
filho bastardo duma queca

Veio ao mundo durante o cerco
Nasceu no calor de Agosto
Cobria a estrela da manhã
Cobria até o sol posto

Era pândega que respirava
por ela passava por tolo
Partiu em santa cruzada
Quando lhe escasseou o consolo

Desconhecida a incontinência do transporte
Rumo a Este buscando a passareca
Pensamento no perfume de pubis
E o cavalo gotejando, c'o a breca!

Estafado e já sem divisa
Para curar cavalo de perna manca
Irmã exilada de uma poetisa,
alcançou castelo de Florbela Tranca

Lá no alto da torre pendia
Tanta tristeza como formosura
Há anos que a Deus pedia
Que alguem lhe encardisse a brancura

Atordoado com semelhante visão
Fornicolau encarnado de loucura
Mandou dizer pelo escrivão
"Ai filha és pura, tão pura"

Desceu ao jardim
Seduzida por semelhantes recados
Fornicolau não subiu mais
pois tinha os colhões pesados

As escadas eram compridas
Desceu-as de par em par
Fornicolau veio da passareca
para a passareca queria voltar

Florbela tombou finda a descida
Pois foi desmesuradamente lesta
Fornicolau p'ra evitar a queda da querida
Levou com uma têta na testa

A porta do meu amor, não abri a nenhum
Disse Florbela com lascívia
Possuído pelo século vinte e um
Fornicolau disse que trazia nivea

Na indecisão "se a tire se a meta"
Com a espada em riste a feriu
Sangrou dias a fio
Fractura exposta da greta!

Fornicolau não suportou
A dor de rasgar sua amada
Pôs-se a cavalo e nada mais montou
retornou à antiga morada

Nove meses esperou, inchada
E nada aconteceu
Um mês depois a mãe mal sentada
Deu um traque, nasci eu!

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Cerco de 1352 à passareca de Santa Godofreda, a Húmida (incluindo boas vindas à cara leitora)

A passareca acordou a cantar
Hinos babados cheios de cabelos,
Dá-nos vontade de escarafunchar
Com os dedos e depois lambê-los.

Nós estamos todos à volta dela,
Quatro homens com enormes mangueiras,
Mangalhos que aguardam a lambidela
Que trará mais quentinhas brincadeiras.

(Caríssima leitora, nada tema,
Terá todo o respeito que merece.
E tire uma p'ra fora sem problema,
Que, já agora, a gerência agradece.)

No fundo, somos meninos rabinos,
Filhos de S. Fornicolau Cueca.
Cumpram-se agora os nossos destinos:
São horas de comer a passareca.